Dublador de Apartamentos – Parte Final
Voltei. O café estava tão forte que me deu dor de barriga. Pois então, minha diversão dos fins de semana quando não saio pra tomar umas é ficar olhando as janelas dos outros apartamentos. É como uma novela, cada janela é uma cena nova, às vezes sem conexão alguma, mas com histórias interessantíssimas. Se eu tivesse uma câmera, iria filmar janela por janela, aposto que daria uma excelente longa. Podia ser estrelado por Lázaro Ramos, o único que poderia me representar no mais alto nível de boniteza. Eu seria o principal protagonista dessa historia…
Transformo a vida dessas pessoas que vejo em cada apartamento muito mais interessante que a vida real. As minhas dublagens e a minha mente criativa quebra a apatia que há nesses pequenos aquários (como o meu apartamento), a vida monótona e sem graça daquele casal de idosos que fica assistindo televisão e peidando o tempo inteiro se torna uma trama mais apimentada quando entra em cena a sua empregada que adora fazer carinhos no vovô – descobri que ele tem problemas cardíacos, por isso ela costuma massagear seu peito todas as noites – ele é nervoso, toma remédio para controlar os nervos senão tem um ataque fulminante e morre imediatamente. Coitada da velhinha tagarela e surda, ela vai pro banheiro a cada cinco minutos. A empregada, mocinha jovem de vinte e poucos anos está sempre lá cuidando deles, uma graça ela. Se ela soubesse da minha versão pervertida da história do apartamento dela…
Ontem a noite me encontrei com ela na rua e sem querer a cumprimentei “Oi Jéssica”. E ela sem entender respondeu “meu nome não é Jéssica, me conhece de onde?”. Pensei em responder “é que eu fico olhando a janela do seu apartamento quase todas as noites e dublando sua voz”, mas respondi “desculpe, acho que já vi você em algum lugar”. Fui dando o fora meio sem graça, mas ela insistiu na conversa “acho que já nos vimos antes também, você mora por aqui?”. A conversa rendeu até o ponto de ônibus, agora eu sabia o nome dela, Roberta e foi por isso que soube dessa história dos velhinhos. Podia contar minha versão da história, muito mais interessante. Trocamos os telefones e e-mails. Disse a ela que meu email estava na manutenção junto com o meu computador, pra fazer upgrade. Ela riu e entrou no ônibus.
Agora ao vivo, diretamente da janela do meu apartamento, lá está ela, acabou de chegar à casa dos velhos. Está com a mesma roupa de ontem, deve ir pro banheiro daqui a pouco, depois de cumprimentar os velhos e tomar um banho. Queria que essa luneta alcançasse o banheiro, ia ser perfeito. A velha não está na sala, deve ter ido dormir, agora eu sei que a velha costuma dormir cedo e o velho um pouco mais tarde depois do Jornal da Globo. Ela ainda não foi tomar banho, voltou pra sala só de toalha. Se ela não tivesse me contado a historia, começaria a dublar alguma sacanagem. O velho está olhando pra ela e falando alguma coisa. “Tira essa toalha, quero dar uma chupadinha em você” – eu não perco essa mania de dublar. Queria poder ouvir o que ela tá falando com ele agora, deve ser algo do tipo “O senhor já tomou seu remédio para controlar os nervos, fico preocupada com o senhor, com a sua saúde”. Que coisa triste isso…
Ela veio se aproximando da janela só de toalha e… Fechou a porcaria da janela! Resolvi ligar pra ela. “Alô Jéssica, quer dizer, Roberta…” falei sem saber o que dizer. Deu pra ouvir o velho perguntando com sua voz rouca e irritada “quem é que tá ligando uma hora dessas pra cá?”. Ela respondeu que não era ninguém não e cochichou baixinho dizendo “agora não posso, depois ligo pra você”. Já ia colocando o aparelho no telefone quando percebei que ela ainda não tinha desligado. Provavelmente, na pressa de desligar logo, não colocou o telefone corretamente no gancho. Já que não posso ver o que eles estão fazendo, vou ouvir o que estão dizendo, mas só conseguiu ouvi apenas alguns ruídos e alguém meio que gemendo. Não conseguiu imaginar outra coisa a não ser sexo.
Que mente mais poluída. Desligou o telefone e foi observar outras janelas. Não achou nada tão interessante essa noite, já estava quase também fechando a sua janela quando percebeu que o vento estava balançando a cortina do apartamento de Roberta. Pegou novamente a luneta e percebeu que ela estava nua, agachada à frente do velho fazendo sexo oral nele. Que nojo, que abjeção, como ela pode fazer isso com um velho? E a pobre velhinha, coitada, dormindo, nem sabe dessa sacanagem que eles estão fazendo! Uma vontade de implodir aquele prédio completamente tomou conta de mim agora. Acho que vou sair pra tomar uma e esquecer toda essa história nojenta. Que pessoas mais imundas!
