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Dublador de Apartamento

11 11UTC novembro 11UTC 2010
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Nossa história começa em um prédio desses que tem mil apartamentos por andares – não propriamente mil, isso é só um “exagerismo”, claro que não existem prédios com mil apartamentos por andares, eu acho. Mas sem maiores digressões, vamos nos ater ao texto e dar prosseguimento a história. Então, como eu ia dizendo, nesse prédio imenso muitas e muitas histórias acontecem em cada apartamento. Milhares de famílias (e homens solitários) com tantos milhares de histórias e complicações… Puta merda, não sei como dar prosseguimento a essa história. Que começo complicado.

Recomeçando. Cá estou em meu apartamento. Mas não é no apartamento do prédio que tem mil apartamentos por andares – claro que não existem prédios com mil apartamentos – já disse isso, não sei por que estou dizendo isso de novo, se bem que o parágrafo anterior não é pra ser considerado já que a história foi recomeçada. Que droga, complicando de novo o começo da história. Aqui no meu apartamento, que fica em frente ao tal prédio de, supostamente, mil apartamentos por andares, não tenho outra visão quando abro a janela, a única janela do meu apartamento tão pequeno, a não ser esse maldito ou bendito prédio – não sei julgar se é ele bom ou ruim, é um prédio normal como qualquer outro, só que imenso – com mil apartamentos por andares – que droga, tenho vontade de implodi-lo quando repito isso.

Bom, contextualizando a minha rua, daqui do meu apartamento pequeno não dá pra ver a rua, a não ser o tal prédio que já falei anteriormente (se me perguntar de que prédio estou me referindo eu juro que mato você e escondo seu corpo no prédio – pois ele é imenso com mais de mil apartamentos por andares – que ódio ter tido isso). Onde estava mesmo… Ah, na rua! Mas não estava na rua, estava falando da rua do meu apartamento pequeno.  A rua é pequena – mas eu não vejo a rua, só um magatal que separa o meu prédio do prédio imenso. Meu prédio é pequeno, esmagado por outros tantos prédios imensos, mas não tão imensos quanto o prédio da frente. A rua é imunda, de noite fumadores de crack tomam conta do pedaço, não posso sair, não posso voltar tarde pra casa, meu horário é controlado por eles. Moro num bairro tipicamente de pobres, sabe esses lugares onde cada janela de apartamento tem uma porção de roupas penduradas? Imagina só no prédio que tem mais de mil apartamentos por andares quanto de roupa pendurada… Às vezes fico de olho pra ver se alguma roupa de marca cai da janela de algum apartamento. Outro dia desci o matagal pensando encontrar alguma roupa de marca, era uma camiseta vagabunda e rasgada. Pra completar acabei rasgando a minha camisa também, agora eu tinha duas camisetas vagabundas e rasgadas.

Ai, essa história está ficando chata. Preciso dar um salto na trama. Mas antes preciso contar um pouco sobre mim, pra ser contextualizado na história. Faço parte da história no papel principal, o artista de Hollywood. Sabe Lázaro Ramos? Um prazer, você está falando com o próprio. Não preciso descrever muita coisa do ponto de vista físico. Do ponto de vista financeiro posso dizer que sou uma tragédia, mas não conta isso pra ninguém porque estou saindo com a gostosa da lanchonete do pequeno shopping que eu trabalho de vigia noturno. Disse a ela que eu era chefe do departamento de segurança operações noturnas. Saímos um dia só pra almoçar, foda!, tive que pagar o almoço dela e fingir que não me importava com a quantia. A desgraçada come feito um peão, parece que nunca viu comida na vida, ou foi porque sabia que o otário aqui é que ia pagar a conta. No fim das contas, levei ela pra comer, mas não comi. Mas ainda estou na luta, próxima etapa é disponibilizar verba para o motel. Bem que podia levar ela no matagal aqui da frente, mas os vizinhos do prédio de mil apartamentos iriam ficar de olho, bando de pervertidos sem educação. Eu comendo a mulher e eles olhando, aposto que ia ter algum velho bêbado tarado se masturbando.

No meu apartamento pequeno tenho uma televisão pequena que só pega malmente a rede globo por conta das interferências dos outros prédios que são maiores que o meu prédio, um DVD com alguns filmes piratas, um microssystem, cama de solteiro, geladeira capenga, fogão nem se fala – ganhei da minha vó quando comprou um novo – e algumas quinquilharias que inclui aí, em especial uma máquina de datilografar Olivetti. Em plena era digital, cá estou eu com uma máquina de datilografar. Comprei faz algum tempo quando fiz curso de datilógrafo. Não tenho intimidade com computador, pra falar a verdade, não tenho computador – mas não fala pra ninguém porque estou tentando comer a gostosa da lanchonete, se ela souber da minha pindaíba, eu to lascado de quatro. Ainda gosto do barulho do plec plec, isso nenhum computador substitui, pena que não vende mais o rolo de tinta. Seria legal se essa porcaria pudesse enviar email. Disse à gostosona que meu computador tava no conserto pra fazer um upgrade – não sei se ainda usam esse termo, mas achei legal pra impressionar.

Ah, ia esquecendo do fundamental objeto do meu apartamento: a luneta! Quando eu vim morar aqui encontrei essa luneta abandonada numa caixa escondida no depósito de quinquilharias do prédio – é onde o pessoal guarda as coisas que não usam mais, mas que tem pena de jogar fora. Não roubei propriamente, apenas fiz uma troca, coloquei um ventilador quebrado, mas que funciona, só o motor que tá ruim, dá pra consertar tranquilamente, por isso não joguei fora.

Agora vamos para o tão prometido salto nessa história que tava ficando chata (lembra?). Então… Uso essa luneta para ver coisas além do que os meus olhos veriam através da única janela do meu pequeno apartamento que só da pra ver o matagal e o imenso prédio com mais de mil apartamentos por andares… Bom, mas antes de falar sobre isso, olha que broxante: vou tomar um café, depois volto a escrever.

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