I’ve been there – Parte 1

2009 Novembro 8
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por Rico Soares

astronauta 06Os principais jornais do mundo ridicularizam um ex-astronauta da Agência Espacial Norte-Americana ao afirmar recentemente – declarações polêmicas – que o governo americano escraviza como animais toda a população de um planeta distante vinte anos-luz da terra, na constelação de Libra. “I’ve been there” manchete do The New York Times apresenta uma exclusiva com o astronauta Allan Cayford.

NYT: O senhor afirma que há vida inteligente fora da Terra e que os humanos escravizam os seus habitantes?

CAYFORD: E por que não? Os humanos são capazes de escravizar uns aos outros… A declaração Universal dos Direitos Humanos não se aplica aos extra-terrestres. Não existe uma Declaração Universal dos Direitos dos ‘Não-Humanos’.

NYT: O senhor foi o único que esteve nesse planeta? Há tecnologia disponível para esse tipo de viagem?

CAYFORD: Você acha que o governo financia a NASA há tanto tempo porquê? (pausa) Porque eles sabem que a agência é competente o suficiente para descobrir planetas habitáveis e recursos naturais como água, urânio e minerais diversos que precisam para a manutenção da ordem capitalista e imperialista americana. Vocês riem, mas o governo financia a pesquisa espacial com esse único objetivo. Essa busca nunca foi por uma causa nobre, o ser humano não é pacífico a ponto de gastar “zilhões” durante muitos anos apenas para fazer um novo “amiguinho interplanetário”. Não se enganem…

NYT: Mas o senhor não respondeu a pergunta…

CAYFORD: Pensava que havia vida inteligente no seu jornal. A sua pergunta é óbvia. Claro que eu não fui o único, há o Exército e todo um aparato bélico e tecnológico naquele planeta. A tecnologia para esse tipo de viagem existe há muitos anos. As informações, meu caro, são confidenciais. Nenhum cientista vai à imprensa para dizer das suas descobertas, é tudo muito sigiloso, por debaixo do pano.

NYT: Mas você resolveu ir à imprensa…

CAYFORD: Sim. Não se trata de divulgar informações confidenciais, o que está em jogo é a vida. A vida de milhares de inocentes, um planeta que não sabia o que era um guerra até a nossa chegada. Um planeta que não sabia o que era o ódio até descobrir o quanto somos malvados. Eu fui à imprensa para denunciar e fazer um apelo ao mundo: libertem o povo do 581e.

NYT: Em nota oficial, a NASA afirma que o senhor teria enlouquecido e por isso afastado da agência.

CAYFORD: Eles tentaram me matar assim que eu terminei aquela coletiva de imprensa em que eu deveria falar do “sucesso” da minha missão em “permanecer durante quatros anos na base espacial lunar”. Eu não quis compactuar com aquela palhaçada. Nunca houve tal missão, o que houve foi a minha viagem ao 581e por quatro anos juntamente com um grupo de cientistas renomados. Mas a NASA precisava de um circo para agradar a vocês da imprensa, sempre foi assim desde a “viagem” à lua no século retrasado.

(Continua na próxima postagem)

A primeira vez da virgem Maria – Epílogo

2009 Novembro 1
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por Rico Soares

6501noiteMeu nome não importa. Minha face é oculta ao mundo. Sou filho da noite, condenado a viver sob a luz das trevas. Nasci na Polônia, fui resgatado de um casebre  em chamas num pequeno vilarejo às margens do rio Warta. Esse vilarejo foi tomado em chamas. Eu era filho de lavrador e esta também era a minha ocupação. Quase todos foram mortos, exceto eu e um senhor aparentando uns quarenta anos. Ele estava pálido, ferido, desesperado. Precisava se alimentar e eu fui o seu alimento.

Esse senhor escravizou a minha alma. Tornei-me o seu servo. Há uma profecia, contava-me o senhor, a qual deveria ser cumprida e eu era o escolhido, aquele que renasceu do fogo, para fundar na terra uma nova era dominada pelas trevas. Novecentos e noventa e nove anos se passaram desde aquele dia e na cidade de Poznań, local do antigo vilarejo, nasceu Aniela. Sua casa foi tomada em chamas seis dias após o seu nascimento. Era o sinal da profecia. O meu senhor, anos mais tarde, juntou-se com Aniela e assim tiveram Ewa, batizada em cumprimento as escrituras que ele tinha em mãos.

Os escritos em chinês arcaico traziam em seu brasão um dragão, o mesmo tatuado em meu braço em alto relevo, com fogo, por meu senhor. A marca do meu compromisso com as escrituras. Ao tempo certo, Ewa deveria ser entregue a mim para que eu tomasse do seu sangue mais puro e em seguida, sacrificada para fazer valer a profecia e, assim, em nome do meu senhor, ao qual sou eternamente grato, sentarei em meu trono e o mundo será tomado pela mais profunda escuridão.  Tudo estava perfeito…

Um dia, a profecia foi descoberta por Aniela e, enquanto o meu Senhor dormia, ela o cobriu com a luz do sol e fugiu para bem longe levando Ewa, ainda criança, consigo. Os anos de espera se perderam com a morte do meu Senhor e a minha busca era por vingança. Até que um dia, folheando as escrituras, descobri que tudo estava previsto na profecia. E assim desesperadamente procurei por Ewa em todos os cantos do mundo. Quase vinte anos depois eu a encontrei a tempo de fazer cumprir o que estava escrito. Aniela logo ao chegar aqui mudou sua identidade e Ewa foi rebatizada por Maria. Eu farejei o seu sangue e tudo o que eu tinha a fazer era tomá-lo para mim. Vinguei-me de Aniela e a contaminei com o meu sangue. Ela se nega a assumir a sua nova condição, não se alimenta do sangue humano, está cada vez mais fraca e espera morrer assim. Quanto a você,  poupei a sua vida para que seja o meu escravo, como fizera o meu Senhor comigo…

– Mas você matou Maria… Não há mais como cumprir a profecia… – Disse o namorado da moça.
– Não seja tolo – disse o homem desconhecido – se eu estiver certo, ela deverá acordar ao terceiro dia.
– Mas como isso é possível se ela caiu da janela do apartamento? – perguntou o rapaz.
– Você questiona demais para um escravo – gritou o homem desconhecido – a minha marca foi fixada em seu corpo antes dela cair. – concluiu.
– E se ela não acordar? Insistiu o namorado.
– Seremos exterminados ao raiar do sexto dia, após a morte de Ewa – ele respondeu preocupado – eu terei falhado… Mas por outro lado, será o fim do meu sofrimento, um alívio para a minha existência medíocre.

O homem desconhecido sacrifica um bode e pede ao seu escravo para retirar sangue do animal e o por em uma garrafa. Ele dará o sangue do bode para Maria tão logo ela desperte. E assim é feito. Momentos depois, Maria faz sexo com o desconhecido – Talvez um erro de interpretação aí cometido tenha estragado tudo. A profecia está concluída, mas foi um fracasso para o homem desconhecido. A virgindade de Maria foi rompida pelo homem desconhecido, mas quem, de fato, tomou do seu sangue puro foi o namorado da moça, o poder das trevas agora o pertence. Assim, ao sexto dia da morte de Maria, a terra é recoberta por trevas e uma nova Era se instaura. O FIM ou apenas um recomeço…

A primeira vez da virgem Maria – Parte 4

2009 Outubro 25
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por Rico Soares

lagrima_de_sangue

Maria está confusa. Ela pensa apenas que tudo não passa de um pesadelo. Estaria delirando? Em um ato desesperador, dá tapas freneticamente em seu próprio rosto, uma tentativa em despertar para a normalidade… Seu namorado bloqueia fortemente os seus braços utilizando apenas uma de suas mãos. Com a outra, dá-lhe um tapa agressivo em seu rosto que a faz cair batendo a cabeça em um armário, de maneira tão violenta a ponto de quebrar as portas. Mas ela não sente dor, não sente nada…

- Eu quero ver minha mãe! – Ela grita
- Esqueça que você possui uma família – fala calmamente o homem desconhecido – você está morta… – ele sorrir sadicamente.

O seu namorado estende a mão para que ela levante. Ela está nua mas não sente vergonha do seu corpo exposto. Ainda há sangue escorrendo por suas pernas. A sua pureza foi rompida. Ela está em pé, seu namorado a abraça e a beija lentamente. Ele se abaixa e experimenta do sangue em suas pernas. Ela suspira e inclina a sua cabeça para trás. Ele encosta sua boca em seu sexo e, agora sim, ela começa a delirar.

Uma fraqueza começa a tomar conta de Maria. Não consegue manter-se em pé, desliza-se na parede e deita-se ao chão. O namorado continua o seu ato incessantemente e cada vez mais feroz. Ela está completamente dominada por ele. O homem desconhecido observa a tudo mas percebe que é necessário intervir na ação. E assim o arranca rapidamente das pernas da moça. O rapaz não resiste e aceita a intervenção pacificamente, está ofegante e com a boca tomada de sangue. Maria está desacordada.

- Já fizemos o que devia ser feito, agora vamos tirá-la daqui – disse o desconhecido.

O namorado dela sente um momento de comoção, quase chora. Ela não vai viver mais. A profecia precisa ser cumprida. Os dois homens se olham silenciosamente e o mais jovem se abaixa e carrega Maria em seus braços.  Ele pensa em recuar mas sabe que o seu destino depende de um sacrifício.

A madrugada está quase no fim. Maria acorda numa praia, com todos os seus membros amarrados compondo o desenho de um pentagrama. O seu sangue ainda é derramado, há muitas velas acessas ao seu redor. Parece peça de um ritual satânico. Maria grita e se transforma. Seus olhos brilham e ela chora. Ouve o barulho das ondas do mar e ao primeiro raio de sol o seu corpo arde. Ela sente dor. E às oito horas da manhã Maria é apenas areia de praia.

Os dois homens dormem em seus caixões cobertos e protegidos de qualquer luminosidade. São frágeis durante o dia e poderosos durante a noite. E mais poderoso ainda é o homem desconhecido que foi o primeiro a experimentar do sangue da virgem Maria. A profecia está concluída.

A primeira vez da virgem Maria – Parte 3

2009 Outubro 9
por Rico Soares

vermelho- Preciso tomar uma ducha, estou suja e fedida
- Não se preocupe, mesmo assim você continua linda…
- Poupe-me das suas cantadas! Estou totalmente confusa e com medo.
- Desculpe, não foi essa a minha intenção… O banheiro fica àquela direção, ao fim do corredor.
- Estou nervosa… preciso saber o que aconteceu comigo. Desculpa a grosseria. Nem ao menos te agradeci…

Maria vai ao banho enquanto o homem prepara uma bebida. Alguns minutos depois, ela sai do banheiro apenas coberta por uma toalha.

- Você por acaso não teria alguma roupa para me emprestar? A minha, você sabe… Não sei quanto tempo fiquei naquele caixão horrível e úmido.
- Bem… Eu não tinha pensado nesse detalhe. Amanhã cedo comprarei uma roupa para você.
- Mas você acha que eu vou dormir aqui completamente nua?
- Você dormiu por quase uma semana… Ainda está com sono?!
- Não… Não é isso… Eu simplesmente não posso ficar com um desconhecido coberta apenas por uma toalha.
- Eu não vou me importar se você quiser ficar sem a toalha…
- Escuta aqui…
- Calma, estou apenas brincando! Tome, preparei uma bebida, você precisa se alimentar, está totalmente pálida.
- E o que é isso que você está me dando, posso saber?
- Sim… é um poderoso “energético”. Você não precisa saboreá-lo ao menos por enquanto… Beba de uma só vez, é bom, procure não sentir o sabor.
- Tudo bem… estou faminta. Só por isso vou confiar em você.
- Eu tirei você daquele caixão, só por isso, pode confiar em mim.

Maria bebe furiosamente a porção, desejando imediatamente mais. Seus olhos brilham intensamente, ela sente o seu sangue circular por todo o corpo e o seu coração bate aceleradamente. Ela está totalmente excitada e sem esperar que ele a entregue mais uma dose, toma instintivamente de suas mãos e ingere numa velocidade animal, derramando em seu corpo nu algumas doses do líquido. Ele observa a tudo num gozo interno. Não esperava tanta fúria. Ela está ofegante, dá para sentir a sua respiração de longe. Ela o ataca como quem o quer devorar vivo, começa a beijar e tocar em seu corpo, rasgando-lhe a roupa. Ela está possuída.

Ele vai se deixando envolver por ela – a agitação dela quebra alguns objetos pela casa – eles se deitam em cima de uma mesa e começam num ritmo frenético a fazerem sexo. Ela o arranha diversas vezes nas costas e grita – entre dor e prazer. Ao terminarem, ambos estão exaustos. E ela manchou os leçóis de sangue.

- Eu a matei naquela noite.

Ela sai do transe em que estava e, de volta à realidade, tenta assimilar o que acabou de ouvir. Mas antes que ouvisse uma só palavra, o seu namorado aparece vindo de um outro cômodo da casa. Tudo está confuso agora. (Continua na próxima postagem)

A primeira vez da virgem Maria – Parte 2

2009 Outubro 3
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por Rico Soares

women-orgasmUm jovem desconhecido com uma tatuagem de dragão chinês em seu braço direito, aparentando vinte e poucos anos, comenta, ironicamente, com um dos familiares da moça: Maravilhosamente linda… Lamentável ter pulado daquela janela. Mas talvez tenha sido melhor assim. O tio da moça, tomado ainda pela emoção, não compreendendo claramente o que acabara de ouvir  pergunta gentilmente: O que disse jovem? Perdoe-me, eu não estava prestando atenção.

Duas horas e dezessete minutos da madrugada no terceiro dia da morte de Maria. O mesmo homem da tatuagem, dessa vez trajando negras roupas e carregando uma pequena caixa térmica, está posicionado em frente ao túmulo da moça. Ainda há muitas flores sob o túmulo. Em seu epitáfio, entre outras palavras, há uma frase que lhe chamou a atenção: “o silêncio dos que já se foram reina em absoluto neste mundo”. Os mortos têm muito a dizer, só não tem quem os escute… ele pensa.

Seus olhos estão brilhando. Está uma noite clara, céu limpo após um longo período de chuva. Nem parece que é inverno, um espetáculo de estrelas no céu, noite de lua crescente. O homem tenta fazer um esforço para ouvir os mortos, quem sabe – ele pensa – há algum morto querendo contato ou, quem sabe, alguém aparece do lado de lá para levá-lo e livrá-lo do seu sofrimento imortal.

Do tanto que já viveu, embora exista dúvidas de que realmente isso é vida, suas esperanças está prestes a se perder, suas suspeitas podem não se confirmar, o que para ele certamente seria dor e alívio ao mesmo tempo. Espera pacientemente olhando fixo ao túmulo da jovem quando um leve movimento fez a terra subir suavemente como se a moça estivesse viva e querendo sair debaixo da terra.

Suspiro. Abriu os olhos, tudo está escuro. O ambiente é quente e abafado. Sua pela está suada e suas vestimentas completamente molhadas. Consegue sentir uma quantidade assustadora de formigas passeando por seu corpo – se é que são apenas formigas – está com medo e o desespero começa a tomar conta da situação. Não sabe onde está, não sabe o que aconteceu, não sabe como pedir ajuda, não sabe de nada… Ela não sabe que está presa debaixo da terra, apenas suspeita que está dentro de um caixão. Respira ofegantemente.

Com certa dificuldade, começa a empurrar para cima na tentativa de conseguir abrir o caixão, mas percebe que em nada está adiantando. A madeira é muito espessa, dificilmente conseguirá escapar, está fraca… Ela tenta gritar por socorro mas a sua voz é abafada, não encontra espaço para se propagar. Maria começa então a chorar e a orar, quem sabe assim Deus a ouve e faz algum milagre acontecer. Mas debaixo da terra, é mais fácil apelar para outro deus, talvez ele escute com mais prontidão. E, para ela, como um milagre, o caixão é aberto.

O homem da tatuagem estava certo quanto a sua suspeita. Ele cavou a terra quando percebeu que ela poderia estar viva. Naquele momento, ele era para ela, o anjo enviado por deus. A moça ainda está confusa e se arrasta sob a terra, está muito fragilizada e totalmente desorientada. Não sabe o que fazer, não sabe como agir, está revivendo a situação de ter nascido outra vez. Aquele caixão úmido era como um útero, como um bebê que após respirar pela primeira vez, precisa se alimentar. Ela sente muita fome. O homem retira da sua caixa térmica uma garrafa e ela sem nem mesmo sabe rdo que se trata, por impulso quase primitivo, ingere completamente todo o líquido, desejando mais e mais…

Enquanto se alimenta, o homem vai recompondo o túmulo para que ninguém perceba ou desconfie que o corpo de Maria não se encontra mais. Eles saem do cemitério, entram num velho carro e partem sem deixar vestígios. Era mais seguro e prudente levá-la para a sua casa. Eles precisam conversar seriamente sobre o que aconteceu nos últimos dias. (Continua na próxima postagem)

A primeira vez da virgem Maria – Parte 1

2009 Setembro 28
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por Rico Soares

nua 8Salvador, inverno, quatro e meia da tarde de uma terça-feira qualquer. O tempo está nublado, choveu muito pela manhã e naturalmente faz frio. Estamos em um cemitério na Baixa de Quintas, um dos mais antigos da cidade. De aspecto horrível como todos os outros cemitérios – lugar onde os homens guardam os mortos para apodrecerem e alimentar um dos setores capitalistas mais lucrativos do mundo. Há muita gente chorando, familiares, amigos. Há também o pessoal da imprensa e simpatizantes da jovem moça de 23 anos recém graduada da escola de Belas Artes, dona de uma beleza e amorosidade que deixavam qualquer um apaixonado. Mas agora ela está morta e ninguém sabe explicar realmente o que aconteceu. Todos estão inconformados.

Uma semana atrás, por volta das três horas da manhã, ela acabara de chegar acompanhada por seu namorado, ao prédio onde mora, após uma festa de comemoração com seus amigos da faculdade. Seu namorado estava visivelmente bêbado, mas ela não havia tomado uma só gota de álcool. Apesar de comemorar a sua formatura, não estava feliz porque sua mãe encontrava-se hospitalizada em estado terminal de leucemia. Ela não conseguia esconder a preocupação. Maria solicitou ao porteiro do prédio ajuda para acompanhar o seu namorado até o apartamento no oitavo andar. Eles colocaram o rapaz no sofá, ela agradeceu ao porteiro e foi tomar uma ducha.

A noite tinha sido animada para todos. Sentia que a sua vida finalmente começava a valer a pena a partir daquele momento. Mas nessa noite, ela pressentia que algo de ruim estava por acontecer. Ao sair do banho, coberta apenas por uma toalha, ela olha para o seu namorado, se apavora e ensaia um grito. Mas antes disso é silenciada. O porteiro assistia ao programa evangélico Fala Que Eu Te Escuto quando ouviu um barulho forte. Um estrondo, um alarme de carro disparado e cachorros da vizinhança latindo. Ele se assustou, pegou a sua lanterna e foi verificar o que aconteceu.

Uma cena terrível. A jovem Maria totalmente despida em cima de um carro amassado. Ela havia despencado da janela do seu apartamento. Ele rapidamente verificou a sua pulsação mas não identificou sinais vitais na moça. Imediatamente correu para chamar a polícia e pedir ajuda a alguns moradores. Mas já era tarde… Alguns poucos minutos depois a polícia e uma equipe médica chegam ao local. Os policiais invadem o apartamento e encontra o outro jovem, o namorado da moça, também morto. Provavelmente, diz um dos peritos, crime passional seguido de suicídio.

A mãe de Maria foi poupada de receber a notícia, dada a gravidade e o avanço da sua doença. Daqui a pouco morre e se junta a ela também… diziam um dos familiares de olho na possível herança. O caso se espalhou rapidamente pela imprensa sensacionalista. Os jornais especulavam os motivos que levaram o casal ao óbito. Foi notícia até no Jornal Nacional pois a moça era jovem, bonita, olhos claros, branca e de classe média, ingredientes perfeitos para o aumento de audiência.

Verdades e mentiras circulando, os mortos não contam histórias. A polícia encontra vestígios de que o porteiro havia sido o último a entrar no apartamento. Pobre, negro e analfabeto, com a imprensa na cola, a polícia descarta a possibilidade de crime passional – aquela linda moça não faria isso… – e o prende como suspeito. Caso encerrado. Voltemos ao funeral… (Continua na próxima postagem)

Em crise?

2009 Setembro 12
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por Rico Soares

não seiNão sei o que vou começar a escrever nas linhas seguintes, mas estou tentando nesse momento em que escrevo, saber o que eu vou escrever. Eu queria saber, mas não sei e isso me angustia porque o desejo, a vontade de escrever é imensa – sempre – mas não sei o que… Tantas e tantas vezes já escrevi, mas o que eu já escrevi já não posso – ou não devo – escrever mais ou reescrever, pois já não seria assim tão original e o que eu preciso, para escrever, é de originalidade, surpreender com o novo, fragmentos, textos, idéias nunca antes, jamais escritas, tanto por mim – que tento escrever – tanto por outros. Mas talvez esses “outros” não pensam como eu – e não pensam, eu sei, ou não sei – As linhas que me restam já são poucas, insuficientes para escrever tudo aquilo que eu gostaria mas que eu não sei – ainda – a essa altura do texto em que escrevo, sem nem porque… Se está preso em mim eu não sei também, eu não sei, não sei… Angústia novamente – eu só preciso saber, preciso escrever e que seja algo inédito, palavras jamais ditas ou reditas de um outro modo. Sei lá… É só isso e isso é tudo, eu acho ou talvez… Não tenho certeza, não sei… Você sabe? Me diz, preciso saber… Mas o que?

Roupa suja

2009 Agosto 29
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por Rico Soares

sexoEla está voltando para casa depois de um intenso e cansativo dia na faculdade. Percorre todos os dias o mesmo caminho e no meio do caminho há sempre um mendigo pedindo esmola. Passa por ele, um ser invisível, sequer o nota. Era assim todos os dias, até que um dia, voltando para casa, sua amiga resolve dar esmola ao pobre homem. Só então ela se deu conta da existência dele, ele fazia parte do seu caminho talvez há anos…

Enquanto o mendigo estendia a mão para aceitar a esmola, ela mergulha em pensamentos – Quantas vezes ele já não estendeu estas mãos imundas para mim e eu simplesmente o ignorei… Ela olha diretamente nos olhos do mendigo que sorri, um sorriso quase sem dentes. Mas naquele dia foi diferente. Eu o mirei pela primeira vez. Nossos olhos se cruzaram, harpas de anjos tocaram. Eu estava tocada… – Ela suspira ao som das harpas.

A noite, deitada na cama, faz anotações em seu diário. As vezes o amor se manifesta de diferentes formas em sua vida, mas você não o nota. Onde estará o verdadeiro amor neste momento? Precisamos abrir os olhos para o mundo. Estamos presos em sistemas, em ideologias, em conceitos e preconceitos. Esquecemos do amor puro, desse amor verdadeiro…

No dia seguinte, ela caminha sozinha pela rua, lentamente se aproxima do mendigo e se olham por alguns segundos. Nossos olhos podem até se fechar… Mas os olhos da alma estão sempre abertos – Ela pensa e resolve dar uma esmola ao mendigo. Suas mãos se tocam… Um contraste entre a sua delicadeza e a brutalidade dele. Ela fecha os olhos quase suspirando. Entrou em êxtase e voltou correndo para casa.

Depois desse dia, ela levou semanas ou talvez meses sem passar por aquele caminho. Estava em crise: sua alma dizia “sim” e outras tantas vozes em sua cabeça gritavam “nao”. Mas um dia, distraidamente, volta a percorrer este mesmo caminho de antes, mas desta vez o mendigo não está mais, em seu lugar há apenas jornais e papelões velhos.

O que teria acontecido com aquele mendigo? Ela sentiu uma inquietação no peito, o seu coração estava em disritmia. Então se abaixou e pegou um pedaço de jornal velho.

Minutos depois em seu quarto, deitada na cama, ela analisa o pedaço de jornal e sente o cheiro do mendigo. Talvez eu esteja ficando louca, mas eu sinto que a minha vida não faz sentido algum. Ela se levanta e resolve por um impulso sair de casa.

Enquanto está fechando o portão, avista de longe o mendigo aparentemente vindo em sua direção. Ela, inesperadamente, sai correndo em direção a ele e o abraça fortemente dando-lhe beijos por todo o rosto. Ele apenas sorri sem entender absolutamente nada. Ela o pega pelas mãos e o convida para dentro de sua casa. O amor comente as maiores loucuras.

Ela deu banho no mendigo e o levou pra cama. A noite, quando seus pais chegaram em casa entraram no quarto dela e se assustaram com a presença daquele ser de aparência brutal. Eles ameaçaram chamar a polícia e interná-la num hospício, por pouco não a agrediram. O amor que ela era capaz de sentir, era inaceitável por qualquer mortal.

No dia seguinte, enquanto o mendigo arruma sua área com papelões e jornais – provando que o amor comete loucuras – a jovem estudante leva uma pequena mala com algumas roupas e alguns poucos pertences, senta-se ao lado do mendigo, se abraçam e se beijam apaixonados. O amor que ela sentia era mais forte do que tudo… Tudo mesmo.

Entidade lucrativa sem fins filantrópicos

2009 Agosto 22
por Rico Soares

god_is_a_girlEu compus um pequeno poema baseado no que as pessoas sempre desejam uns aos outros: paz, saúde e felicidade…

Que Deus ilumine sempre o seu lar
Mas não se esqueça de pagar a conta de luz.
Que Deus te dê Saúde
Mas que não seja hospital do SUS.
Que Deus te dê muita paz
Mas cuidado pra não morrer entediado.
E que você seja sempre feliz
Mas cuidado pra não virar viado.

Independentemente de sua crença religiosa, procure sempre praticar o bem, siga o caminho da luz e da salvação – glória a Deus senhor todo poderoso – Aleluia e amém.

Antes que Jesus volte para reclamar, eu também quero explorar o segmento. O negócio é usar o santo nome do senhor em vão, faz muito sucesso nas outras igrejas… Vou escrever um livro – espero que ainda não tenha – chamado “Aprenda Marketing com Jesus Cristo” – e explorar também um segmento ainda ignorado pela concorrência, o dos sexy-shop. Já pensou produtos de caráter religioso que promete o “milagre da multiplicação do orgasmo” assinado por Jesus Cristo ou que tal o Afrodisíaco São Lázaro: levanta até defunto?

Faz tempo, resolvi abrir uma cadeia de templos: Igreja Universal Católica Apostólica Renascer em Cristo dos Santos dos Últimos Dias da Sagrada Família Cristão Romana e Episcopal do Reino de Deus Todo Poderoso.

É uma Igreja nova e com uma proposta muito mais abrangente que as outras. Ideal para toda a família. Lá, tudo é muito mais aberto e descaradamente assumido. Estudante paga meia e há cadeiras numeradas (as do fundo são mais econômicas) e também camarotes vips (com pista de dança e open bar durante o culto). Ao fim, sempre são realizados sorteios com prêmios de até um milhão de reais – que são automaticamente doados para a Igreja. Como ainda é uma Igreja nova, aceita-se sugestões, desde que haja lucratividade, para evitar que o Reino de Deus na Terra vá à falência. Minha igreja é uma entidade lucrativa sem fins filantrópicos.

Pobre de mim…

2009 Agosto 15
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por Rico Soares

dinheiroEpitáfio de pobre vira muro de lamentações. Uma das máximas filosóficas da internet: morrer é a última coisa que quero que aconteça  em minha vida. Ainda tenho muito sonhos a realizar e muitos sonhos ainda por sonhar. Outro dia ouvi alguém dizer: pobre já devia nascer morto. É um daqueles ditados que minha vó – provavelmente – dizia. Então fiquei pensando nessa possibilidade de não existir pobres no mundo. Praticamente um absurdo. Imagina você um mundo repleto de ricos: quem é que ia lavar as louças, varrer a casa, recolher o lixo da cidade ou vender picolé na praia? Melhor modificar esse ditado para “rico já devia nascer pobre”. Assim, teríamos um mundo digno onde todos os pobres viveram em harmonia: churrasquinho na laje, farofada na praia, pagodão todo domingo, confraternização no buzú… Seria uma mundo honesto, sem maiores ambições e sem os “não me toques” da vida burguês. Vidão bom esse o nosso! Rico só serve para atrapalhar… E pobre para trabalhar! Tadinhos… Alguém disse que dinheiro não traz felicidade, mas é melhor sofrer em Paris. O que adianta ter um monte de dinheiro se não tem saúde? Eu conheço um monte de gente que não tem dinheiro e também não tem saúde! Oras, é melhor morrer em hospital particular do que no SUS! As maiores mentiras conformistas da humanidade: (1) O trabalho dignifica o homem e (2) Dinheiro não traz felicidade.Como eu sou a favor da verdade sempre, vamos inverter a ordem das coisas: (1) O dinheiro dignifica o homem e (2) Trabalho não traz felicidade.  Eu até gosto de trabalhar. E a-d-o-r-o dinheiro. Uma das coisas mais lindas da humanidade. Até escrevi uma declaração demonstrando o meu amor pelo dinheiro: “Eu não consigo viver sem você. A minha vida é tão insignificante sem a sua presença. Quero ter você por toda a eternidade, viver bons momentos e curtir a vida ao seu lado. Podemos sonhar juntos, sem você não faz sentido viver, eu me jogaria ao submundo e viveria feito um mendingo implorando por você. Fica comigo sempre.” Faltou escrever “te amo” mas achei que ficaria meloso demais…