Maldita música sertaneja

2010 fevereiro 2
por Rico Soares

José e Francisco podiam formar uma dupla sertaneja, se para tanto aprendessem a tocar violão. Mas não tem talento para esse tipo de arte. José e Francisco podiam ser pedreiros, marceneiro,s padeiros, cozinheiros e tantos outros -eiros que existem por ai. Mas por terem nascido onde nasceram e por terem sofrido o que sofreram – de terem até comido o pão que dizem ter sido amassado pelo cão – cansados de tanto sofrer, resolveram vez por todas, serem desordeiros.

Todos sabem que a vida não foi feita para amadores. Muito menos a vida de criminosos. Hão de ser profissionais. José e Francisco precisam ser rebatizados. Agora são respectivamente Rato e Coiote. Nomes de animais são ótimos para impressionar. Assim, renunciam os seus nomes, devendo-os usar apenas sob a força da lei, quando assim fichados.

Rato e Coiote, amadores na arte do crime, humildemente foram pedir ajuda a Marreco, malandro experiente, um currículo invejável, já passou pelos piores presídios. Tem “responsa”, tem prestígio, tem todo o reconhecimento negativo da comunidade. Ninguém encosta sem antes pedir permissão.

Então cês querem um desses? Indagou Marreco enquanto mirava um Desert Eagle .50 Action Express que ele fez questão de decorar o nome em um mal inglês só para impressionar. Mas impressionante mesmo é o acervo de armas que ele tem. Só coisa boa. Disse o Marreco. Se fizer bobeira e os cana entrarem aqui eu dou um tiro no cu de cada um.

Nada disso não senhor, vamos roubar uma padaria lá no centro, o português vacila deixando aberta até mais tarde… Disse Coiote. E tu conhece algum dono de padaria rico seu otário? Berrou o Marreco empunhando a arma na nuca do Coiote. Não assalte padarias, pastelarias, lanchonete ou coisa parecida. Aconselhou. Evite assaltar supermercados, a menos que você consiga levar todo o dinheiro de todos os caixas de todos os supermercados da rede…

Mas então, dá uma opinião aí pra gente chefe… Disse o Rato, meio que suando por dentro e se cagando de medo. Em primeiro lugar, não sou teu chefe, em segundo lugar, se tu quer mesmo aprender, pesquise no Google ou na Wikipedia. Disse Marreco irritado. Loja de eletrônicos seria uma boa pedida… Ele sugeriu. Mas aí a gente vai precisar de um caminhão – Disse Rato para irritação do Marreco – Daí vocês roubam uns dez caminhões, contrata uns vinte homens pra ajudar a carregar a mercadoria e depois abre outra loja de eletrônicos pra vocês e ficam ricos! – Marreco estava zombando, mas o Coiote ficou imaginando a façanha! Que tal Coiote Eletro?! Disse eufórico.

Eu sempre quis ter uma Tv de Plasma e um Praystation 3! Berrou o Rato. Aproveitem e tragam um sofá daqueles que vem em forma de círculo, eu sempre quis ter um desses aqui no meu barraco. Disse o Marreco novamente tentando ser sarcástico com os dois. Não quero mais perder meu tempo com vocês, mas como to vendo que cês são muito otário, vou dar uma dica quente: experimente um hotel. Falou Marreco pacientemente, coisa que não faz com tanta freqüência. Legal – disse Coiote – Assim vou poder levar aqueles sabonetinhos amostra grátis aos montes!

Foi então que o Marreco perdeu completamente a paciência e colocou os dois pra correr. Testou a sua pontaria, mas por sorte da dupla, não acertou ninguém. Rato e Coiote, assaltaram uma loja de instrumentos musicais e voltaram a ser José e Francisco. Às vezes quando escuta os dois cantando  na rádio, Marreco lamenta sempre porque errou a porra da mira! Maldita música sertaneja!

O trenó caiu…

2010 janeiro 15
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por Rico Soares

Rô, Rô, Rô o Natal acabou… E com ele acabou o chester, a mortadela, o queijo, a farofa, o pão doce e o panetone. E agora a fila está imensa em frente ao sanitário da minha querida e natalina casa. Acho que o queijo estava estragado ou teria sido o chester que compramos com vencimento no natal passado?

Todo ano, como manda a tradição, antes da ceia, oramos e refletimos sobre o verdadeiro significado do Natal: “Senhor Deus, agradecemos por esta noite maravilhosa, pedimos proteção à todos os famintos e TIRA A MÃO DO CHESTER DESGRAÇADO! Como dizia, proteção a todos os famintos e MISERÁVEL do mundo que neste momento passam fome GRRR EU JÁ MANDEI TIRAR A PORRA DA MÃO!!! Passam fome nesse CARALHO TIRA A MÃO! Amém.”

Em tempo, tenho uma notícia boa e outra ruim: O Trenó do Papai Noel acaba de cair na Serra da Jaburiticaba do Sul. Felizmente, somente o motorista morreu. Mas todos os veadinhos sobreviveram para alegria do movimento GLBTTTTTTTTTTT (essa é a notícia ruim). A propósito, quem ainda, nesse planeta, agüenta ouvir Simoni cantando “Então é Natal” que atire a primeira pedra… NELA! Será que foi por isso que Mark Chapman matou o Jonh Lennon?

I’ve been there – Final

2010 janeiro 9
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por Rico Soares

Cayford, em conferencia com o presidente chinês, pede para que autorize as tropas do seu país a iniciarem o processo de libertação do planeta, mas o presidente diz a Cayford que não poderá fazer isso porque depende daqueles escravos para a reconstrução do planeta Terra, que, muito mais agora, após a Segunda Guerra Nuclear, precisa de recursos naturais disponíveis nesse planeta. O presidente ordena a liberação de Jahifa e permite a sua vinda para o planeta Terra. “Vocês aqui estarão gozando de todas as riquezas e privilégios que necessitam” finaliza o presidente.

Cayford olha tudo em sua volta e percebe o quanto ele foi ingênuo… Tanto China, quanto os Estados Unidos são países conduzidos por tiranos. O povo do 581e continuará escravo. Ele se deixou enganar… Foi até Jahifa e contou a proposta do presidente chinês, mas ela reclinou – Eu não posso abandonar a minha família – disse Jahifa – São todos meus irmãos – concluiu.

Enquanto isso, no planeta Terra, uma nova Guerra se inicia. Dessa vez, países africanos entram em combate. Por anos, os povos africanos se fortaleceram, tornando-se também potências bélicas. O mundo estava tão dividido, que só mesmo uma sucessão de guerras poderia resolver todas as diferenças. Aproveitando a fragilidade chinesa, Africanos tomam o controle do planeta Terra. Agora o mundo está totalmente destruído. Essa nova guerra durou 17 dias, mas não foi tão poderosa quanto a Segunda, pois os recursos já estavam escassos ou destruídos.

Com a derrota dos Chineses e quase destruição completa da humanidade, a nova era do caos tem início. Os terráqueos vivem como na idade das trevas, sem eletricidade, sem tecnologia, com recursos escassos e precários. Já não há mais como um terráqueo se mover ao planeta 581e. Não há tecnologia disponível. Mas ainda é possível viajar do 581e para o planeta Terra. Com a notícia da destruição da Terra, americanos do 581e se rebelam contra os chineses. Inicia-se uma nova guerra, a primeira naquele planeta, que dura três anos e vinte e três dias. Os nativos do 581e aproveitam-se da fragilidade de ambos os grupos e conseguem reverter a situação. Agora o planeta está de volta aos verdadeiros donos. Jahifa retorna ao seu posto.

Todos os humanos são extraditados de volta ao planeta Terra, inclusive Cayford. “A raça humana é inferior, não pode habitar esse planeta para não contaminar o nosso código genético” diz Jahifa. Mais uma vez, Cayford se sente traído. O planeta Terra agora está sob o domínio dos habitantes do 581e e todos os humanos restantes, são condenados a reconstruir o planeta. A Terra foi escravizada e uma nova era tem início. E quando Cayford olha para o céu, sabe que há alguns anos luz da terra, há um paraíso. Mas ele promete vingança. Haverá ainda na terra, em algum lugar, poder suficiente para aniquilar o 581e, promete Cayford.

I’ve been there – Parte 3

2009 dezembro 11
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por Rico Soares

O acordo de guerra entre as nações foi quebrado. Os chineses resolvem ousar na tática e atacam os Estados Unidos sem emitir aviso. Esse acordo foi firmado após a primeira guerra nuclear como uma medida protecionista aos dirigentes dos países em guerra, tempo suficiente para os presidentes e demais autoridades se resguardarem em suas respectivas bases espaciais.

Mas dessa vez, o ataque pegou todo o mundo desprevenido. Os chineses enlouqueceram… E em segundos, importantes cidades americanas são pulverizadas. Os demais países respondem aos ataques e entram em guerra. São doze dias de conflitos intermitentes que resulta na rendição completa dos americanos e seus aliados, o poder bélico dos chineses é altamente surpreendente. Estima-se em quatro milhões ou mais os números de mortos nessa guerra.

O projeto especial americano agora está sob o controle dos chineses e suas tropas. A NASA e todos os anos de pesquisa estão sob nova direção. Cayford, o homem da guerra que quase aniquilou todo o planeta Terra é nomeado o líder do novo empreendimento chinês. Todo poder e glória para Cayford, uma estátua é erguida em sua homenagem em frente à antiga sede do governo americano. Mas tudo o que ele quer é libertar o planeta 581e. Em pouco tempo, a inteligência espacial americana está sob controle total dos chineses, que a dominam o suficiente para dar prosseguimento a todas as pesquisas que a NASA desenvolvia anteriormente. Agora os chineses também podem ir ao 581e.

E essa é a nova missão de Cayford. Conduzir os chineses ao planeta. E assim, em cinco anos, os chineses pisam pela primeira vez no 581e, e no lugar da bandeira americana, ergue-se a bandeira chinesa.

O processo de dominação do 581e foi, em parte, baseado na dominação cultural. A imposição da cultura americana aos nativos daquele planeta foi bastante acelerada por conta, sobretudo, da capacidade compreensiva dos nativos. Uma raça altamente superior aos seres humanos. A Igreja Católica acompanhou todo o processo de colonização do habitável planeta: onde havia uma base militar, havia um templo católico. Deus, também criou o 581e em apenas sete dias…

Cayford se encontra com Jahifa, uma nativa do planeta, o grande motivo para que ele se rebelasse contra o seu país. Jahifa tem traços humanos, mas a sua perfeição supera completamente a raça humana. Ela é linda e tem um encantamento único. Antes da chegada dos humanos, Jahifa era uma espécie de princesa em sua terra, embora esse não fosse o termo utilizado. Ela é descendente dos primeiros habitantes do 581e, a qual todos devem veneração. E Cayford ficou apaixonado por ela… Mas assim como todos, foi presa e obrigada a efetuar serviços escravos. “Vamos libertar o seu povo, Jahifa!” a euforia toma conta de Cayford.

(Continua na próxima postagem)

I’ve been there – Parte 2

2009 novembro 28
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por Rico Soares

Exilado em um mosteiro no Paquistão, após ter concedido entrevista àquele importante jornal sensacionalista, o ex-astronauta Allan Cayford é sequestrado, em uma operação silenciosa, pelo serviço de inteligência chinês. Imediatamente Cayford assina um termo de cooperação com o governo da China em que se compromete a fornecer todas as informações que dispõe desde que a agência espacial daquele país também se comprometa a garantir a libertação do planeta 581e.

Com as informações que Cayford dispõe, os computadores da NASA se tornam mais vulneráveis à ataques. A divisão de hackers do serviço de inteligência da china consegue invadir por alguns segundos – o suficiente para roubar muitas informações – o mainframe daquela agência espacial e, a partir dele, o ataque à rede interna se intensifica amplamente. “O portão de acesso principal à uma grande fortaleza foi rompido” comemora Cayford.

A NASA imediatamente neutraliza os ataques e identifica a sua origem. O Governo Americano envia uma nota de repúdio à China e promete retaliações mais severas caso o ex-astronauta não seja, por vias diplomáticas, extraditado. A China envia um recado aos americanos: “a diplomacia entre os dois blocos não existe desde a Terceira Guerra Mundial, no século passado”. Os Estados Unidos insistem que Cayford é apenas um louco e não deve ser levado a sério. “Não existe vida, muito menos projeto de colonização do 581e” afirmam.

“O mundo novamente enlouqueceu.” diz o Papa Muhammad II, o primeiro árabe a liderar a Igreja Católica. “Os dois blocos precisam acabar de uma vez por todas com o clima tenso e assinar um acordo de cooperação” declara Muhammad II em nota oficial. A China, pela primeira, nos últimos duzentos anos, sinaliza uma abertura pela paz mundial e cooperação mútua entre os blocos. Mas o ditador norte-americano James Oliver, rejeita qualquer acordo entre os países. Atentados terroristas são intensificados em todo o mundo. Estados Unidos anunciam uma nova guerra contra a China. “Haverá paz assim que esse país for totalmente destruído” diz Oliver segundos antes de apertar o botão vermelho que autoriza as forças militares a iniciar os ataques.

Enquanto na Primeira Guerra Nuclear Mundial, a disputa foi travada unicamente entre as bases lunares dos blocos rivais, Estados Unidos e China, com consequente destruição do satélite – o que gerou uma catástrofe ambiental no planeta Terra devido a alteração no ciclo das marés  e na duração dos dias, hoje, reduzido a aproximadamente 18 horas. Esta Segunda Guerra poderá, caso venha a acontecer, destruir o que ainda resta de mundo paradoxalmente “civilizado”. Cayford pode ser o estopim da Segunda Guerra Nuclear Mundial, talvez o fim da civilização humana, na terra.

(Continua na próxima postagem)

I’ve been there – Parte 1

2009 novembro 8
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por Rico Soares

astronauta 06Os principais jornais do mundo ridicularizam um ex-astronauta da Agência Espacial Norte-Americana ao afirmar recentemente – declarações polêmicas – que o governo americano escraviza como animais toda a população de um planeta distante vinte anos-luz da terra, na constelação de Libra. “I’ve been there” manchete do The New York Times apresenta uma exclusiva com o astronauta Allan Cayford.

NYT: O senhor afirma que há vida inteligente fora da Terra e que os humanos escravizam os seus habitantes?

CAYFORD: E por que não? Os humanos são capazes de escravizar uns aos outros… A declaração Universal dos Direitos Humanos não se aplica aos extra-terrestres. Não existe uma Declaração Universal dos Direitos dos ‘Não-Humanos’.

NYT: O senhor foi o único que esteve nesse planeta? Há tecnologia disponível para esse tipo de viagem?

CAYFORD: Você acha que o governo financia a NASA há tanto tempo porquê? (pausa) Porque eles sabem que a agência é competente o suficiente para descobrir planetas habitáveis e recursos naturais como água, urânio e minerais diversos que precisam para a manutenção da ordem capitalista e imperialista americana. Vocês riem, mas o governo financia a pesquisa espacial com esse único objetivo. Essa busca nunca foi por uma causa nobre, o ser humano não é pacífico a ponto de gastar “zilhões” durante muitos anos apenas para fazer um novo “amiguinho interplanetário”. Não se enganem…

NYT: Mas o senhor não respondeu a pergunta…

CAYFORD: Pensava que havia vida inteligente no seu jornal. A sua pergunta é óbvia. Claro que eu não fui o único, há o Exército e todo um aparato bélico e tecnológico naquele planeta. A tecnologia para esse tipo de viagem existe há muitos anos. As informações, meu caro, são confidenciais. Nenhum cientista vai à imprensa para dizer das suas descobertas, é tudo muito sigiloso, por debaixo do pano.

NYT: Mas você resolveu ir à imprensa…

CAYFORD: Sim. Não se trata de divulgar informações confidenciais, o que está em jogo é a vida. A vida de milhares de inocentes, um planeta que não sabia o que era um guerra até a nossa chegada. Um planeta que não sabia o que era o ódio até descobrir o quanto somos malvados. Eu fui à imprensa para denunciar e fazer um apelo ao mundo: libertem o povo do 581e.

NYT: Em nota oficial, a NASA afirma que o senhor teria enlouquecido e por isso afastado da agência.

CAYFORD: Eles tentaram me matar assim que eu terminei aquela coletiva de imprensa em que eu deveria falar do “sucesso” da minha missão em “permanecer durante quatros anos na base espacial lunar”. Eu não quis compactuar com aquela palhaçada. Nunca houve tal missão, o que houve foi a minha viagem ao 581e por quatro anos juntamente com um grupo de cientistas renomados. Mas a NASA precisava de um circo para agradar a vocês da imprensa, sempre foi assim desde a “viagem” à lua no século retrasado.

(Continua na próxima postagem)

A primeira vez da virgem Maria – Epílogo

2009 novembro 1
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por Rico Soares

6501noiteMeu nome não importa. Minha face é oculta ao mundo. Sou filho da noite, condenado a viver sob a luz das trevas. Nasci na Polônia, fui resgatado de um casebre  em chamas num pequeno vilarejo às margens do rio Warta. Esse vilarejo foi tomado em chamas. Eu era filho de lavrador e esta também era a minha ocupação. Quase todos foram mortos, exceto eu e um senhor aparentando uns quarenta anos. Ele estava pálido, ferido, desesperado. Precisava se alimentar e eu fui o seu alimento.

Esse senhor escravizou a minha alma. Tornei-me o seu servo. Há uma profecia, contava-me o senhor, a qual deveria ser cumprida e eu era o escolhido, aquele que renasceu do fogo, para fundar na terra uma nova era dominada pelas trevas. Novecentos e noventa e nove anos se passaram desde aquele dia e na cidade de Poznań, local do antigo vilarejo, nasceu Aniela. Sua casa foi tomada em chamas seis dias após o seu nascimento. Era o sinal da profecia. O meu senhor, anos mais tarde, juntou-se com Aniela e assim tiveram Ewa, batizada em cumprimento as escrituras que ele tinha em mãos.

Os escritos em chinês arcaico traziam em seu brasão um dragão, o mesmo tatuado em meu braço em alto relevo, com fogo, por meu senhor. A marca do meu compromisso com as escrituras. Ao tempo certo, Ewa deveria ser entregue a mim para que eu tomasse do seu sangue mais puro e em seguida, sacrificada para fazer valer a profecia e, assim, em nome do meu senhor, ao qual sou eternamente grato, sentarei em meu trono e o mundo será tomado pela mais profunda escuridão.  Tudo estava perfeito…

Um dia, a profecia foi descoberta por Aniela e, enquanto o meu Senhor dormia, ela o cobriu com a luz do sol e fugiu para bem longe levando Ewa, ainda criança, consigo. Os anos de espera se perderam com a morte do meu Senhor e a minha busca era por vingança. Até que um dia, folheando as escrituras, descobri que tudo estava previsto na profecia. E assim desesperadamente procurei por Ewa em todos os cantos do mundo. Quase vinte anos depois eu a encontrei a tempo de fazer cumprir o que estava escrito. Aniela logo ao chegar aqui mudou sua identidade e Ewa foi rebatizada por Maria. Eu farejei o seu sangue e tudo o que eu tinha a fazer era tomá-lo para mim. Vinguei-me de Aniela e a contaminei com o meu sangue. Ela se nega a assumir a sua nova condição, não se alimenta do sangue humano, está cada vez mais fraca e espera morrer assim. Quanto a você,  poupei a sua vida para que seja o meu escravo, como fizera o meu Senhor comigo…

– Mas você matou Maria… Não há mais como cumprir a profecia… – Disse o namorado da moça.
– Não seja tolo – disse o homem desconhecido – se eu estiver certo, ela deverá acordar ao terceiro dia.
– Mas como isso é possível se ela caiu da janela do apartamento? – perguntou o rapaz.
– Você questiona demais para um escravo – gritou o homem desconhecido – a minha marca foi fixada em seu corpo antes dela cair. – concluiu.
– E se ela não acordar? Insistiu o namorado.
– Seremos exterminados ao raiar do sexto dia, após a morte de Ewa – ele respondeu preocupado – eu terei falhado… Mas por outro lado, será o fim do meu sofrimento, um alívio para a minha existência medíocre.

O homem desconhecido sacrifica um bode e pede ao seu escravo para retirar sangue do animal e o por em uma garrafa. Ele dará o sangue do bode para Maria tão logo ela desperte. E assim é feito. Momentos depois, Maria faz sexo com o desconhecido – Talvez um erro de interpretação aí cometido tenha estragado tudo. A profecia está concluída, mas foi um fracasso para o homem desconhecido. A virgindade de Maria foi rompida pelo homem desconhecido, mas quem, de fato, tomou do seu sangue puro foi o namorado da moça, o poder das trevas agora o pertence. Assim, ao sexto dia da morte de Maria, a terra é recoberta por trevas e uma nova Era se instaura. O FIM ou apenas um recomeço…

A primeira vez da virgem Maria – Parte 4

2009 outubro 25
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por Rico Soares

lagrima_de_sangue

Maria está confusa. Ela pensa apenas que tudo não passa de um pesadelo. Estaria delirando? Em um ato desesperador, dá tapas freneticamente em seu próprio rosto, uma tentativa em despertar para a normalidade… Seu namorado bloqueia fortemente os seus braços utilizando apenas uma de suas mãos. Com a outra, dá-lhe um tapa agressivo em seu rosto que a faz cair batendo a cabeça em um armário, de maneira tão violenta a ponto de quebrar as portas. Mas ela não sente dor, não sente nada…

- Eu quero ver minha mãe! – Ela grita
- Esqueça que você possui uma família – fala calmamente o homem desconhecido – você está morta… – ele sorrir sadicamente.

O seu namorado estende a mão para que ela levante. Ela está nua mas não sente vergonha do seu corpo exposto. Ainda há sangue escorrendo por suas pernas. A sua pureza foi rompida. Ela está em pé, seu namorado a abraça e a beija lentamente. Ele se abaixa e experimenta do sangue em suas pernas. Ela suspira e inclina a sua cabeça para trás. Ele encosta sua boca em seu sexo e, agora sim, ela começa a delirar.

Uma fraqueza começa a tomar conta de Maria. Não consegue manter-se em pé, desliza-se na parede e deita-se ao chão. O namorado continua o seu ato incessantemente e cada vez mais feroz. Ela está completamente dominada por ele. O homem desconhecido observa a tudo mas percebe que é necessário intervir na ação. E assim o arranca rapidamente das pernas da moça. O rapaz não resiste e aceita a intervenção pacificamente, está ofegante e com a boca tomada de sangue. Maria está desacordada.

- Já fizemos o que devia ser feito, agora vamos tirá-la daqui – disse o desconhecido.

O namorado dela sente um momento de comoção, quase chora. Ela não vai viver mais. A profecia precisa ser cumprida. Os dois homens se olham silenciosamente e o mais jovem se abaixa e carrega Maria em seus braços.  Ele pensa em recuar mas sabe que o seu destino depende de um sacrifício.

A madrugada está quase no fim. Maria acorda numa praia, com todos os seus membros amarrados compondo o desenho de um pentagrama. O seu sangue ainda é derramado, há muitas velas acessas ao seu redor. Parece peça de um ritual satânico. Maria grita e se transforma. Seus olhos brilham e ela chora. Ouve o barulho das ondas do mar e ao primeiro raio de sol o seu corpo arde. Ela sente dor. E às oito horas da manhã Maria é apenas areia de praia.

Os dois homens dormem em seus caixões cobertos e protegidos de qualquer luminosidade. São frágeis durante o dia e poderosos durante a noite. E mais poderoso ainda é o homem desconhecido que foi o primeiro a experimentar do sangue da virgem Maria. A profecia está concluída.

A primeira vez da virgem Maria – Parte 3

2009 outubro 9
por Rico Soares

vermelho- Preciso tomar uma ducha, estou suja e fedida
- Não se preocupe, mesmo assim você continua linda…
- Poupe-me das suas cantadas! Estou totalmente confusa e com medo.
- Desculpe, não foi essa a minha intenção… O banheiro fica àquela direção, ao fim do corredor.
- Estou nervosa… preciso saber o que aconteceu comigo. Desculpa a grosseria. Nem ao menos te agradeci…

Maria vai ao banho enquanto o homem prepara uma bebida. Alguns minutos depois, ela sai do banheiro apenas coberta por uma toalha.

- Você por acaso não teria alguma roupa para me emprestar? A minha, você sabe… Não sei quanto tempo fiquei naquele caixão horrível e úmido.
- Bem… Eu não tinha pensado nesse detalhe. Amanhã cedo comprarei uma roupa para você.
- Mas você acha que eu vou dormir aqui completamente nua?
- Você dormiu por quase uma semana… Ainda está com sono?!
- Não… Não é isso… Eu simplesmente não posso ficar com um desconhecido coberta apenas por uma toalha.
- Eu não vou me importar se você quiser ficar sem a toalha…
- Escuta aqui…
- Calma, estou apenas brincando! Tome, preparei uma bebida, você precisa se alimentar, está totalmente pálida.
- E o que é isso que você está me dando, posso saber?
- Sim… é um poderoso “energético”. Você não precisa saboreá-lo ao menos por enquanto… Beba de uma só vez, é bom, procure não sentir o sabor.
- Tudo bem… estou faminta. Só por isso vou confiar em você.
- Eu tirei você daquele caixão, só por isso, pode confiar em mim.

Maria bebe furiosamente a porção, desejando imediatamente mais. Seus olhos brilham intensamente, ela sente o seu sangue circular por todo o corpo e o seu coração bate aceleradamente. Ela está totalmente excitada e sem esperar que ele a entregue mais uma dose, toma instintivamente de suas mãos e ingere numa velocidade animal, derramando em seu corpo nu algumas doses do líquido. Ele observa a tudo num gozo interno. Não esperava tanta fúria. Ela está ofegante, dá para sentir a sua respiração de longe. Ela o ataca como quem o quer devorar vivo, começa a beijar e tocar em seu corpo, rasgando-lhe a roupa. Ela está possuída.

Ele vai se deixando envolver por ela – a agitação dela quebra alguns objetos pela casa – eles se deitam em cima de uma mesa e começam num ritmo frenético a fazerem sexo. Ela o arranha diversas vezes nas costas e grita – entre dor e prazer. Ao terminarem, ambos estão exaustos. E ela manchou os leçóis de sangue.

- Eu a matei naquela noite.

Ela sai do transe em que estava e, de volta à realidade, tenta assimilar o que acabou de ouvir. Mas antes que ouvisse uma só palavra, o seu namorado aparece vindo de um outro cômodo da casa. Tudo está confuso agora. (Continua na próxima postagem)

A primeira vez da virgem Maria – Parte 2

2009 outubro 3
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por Rico Soares

women-orgasmUm jovem desconhecido com uma tatuagem de dragão chinês em seu braço direito, aparentando vinte e poucos anos, comenta, ironicamente, com um dos familiares da moça: Maravilhosamente linda… Lamentável ter pulado daquela janela. Mas talvez tenha sido melhor assim. O tio da moça, tomado ainda pela emoção, não compreendendo claramente o que acabara de ouvir  pergunta gentilmente: O que disse jovem? Perdoe-me, eu não estava prestando atenção.

Duas horas e dezessete minutos da madrugada no terceiro dia da morte de Maria. O mesmo homem da tatuagem, dessa vez trajando negras roupas e carregando uma pequena caixa térmica, está posicionado em frente ao túmulo da moça. Ainda há muitas flores sob o túmulo. Em seu epitáfio, entre outras palavras, há uma frase que lhe chamou a atenção: “o silêncio dos que já se foram reina em absoluto neste mundo”. Os mortos têm muito a dizer, só não tem quem os escute… ele pensa.

Seus olhos estão brilhando. Está uma noite clara, céu limpo após um longo período de chuva. Nem parece que é inverno, um espetáculo de estrelas no céu, noite de lua crescente. O homem tenta fazer um esforço para ouvir os mortos, quem sabe – ele pensa – há algum morto querendo contato ou, quem sabe, alguém aparece do lado de lá para levá-lo e livrá-lo do seu sofrimento imortal.

Do tanto que já viveu, embora exista dúvidas de que realmente isso é vida, suas esperanças está prestes a se perder, suas suspeitas podem não se confirmar, o que para ele certamente seria dor e alívio ao mesmo tempo. Espera pacientemente olhando fixo ao túmulo da jovem quando um leve movimento fez a terra subir suavemente como se a moça estivesse viva e querendo sair debaixo da terra.

Suspiro. Abriu os olhos, tudo está escuro. O ambiente é quente e abafado. Sua pela está suada e suas vestimentas completamente molhadas. Consegue sentir uma quantidade assustadora de formigas passeando por seu corpo – se é que são apenas formigas – está com medo e o desespero começa a tomar conta da situação. Não sabe onde está, não sabe o que aconteceu, não sabe como pedir ajuda, não sabe de nada… Ela não sabe que está presa debaixo da terra, apenas suspeita que está dentro de um caixão. Respira ofegantemente.

Com certa dificuldade, começa a empurrar para cima na tentativa de conseguir abrir o caixão, mas percebe que em nada está adiantando. A madeira é muito espessa, dificilmente conseguirá escapar, está fraca… Ela tenta gritar por socorro mas a sua voz é abafada, não encontra espaço para se propagar. Maria começa então a chorar e a orar, quem sabe assim Deus a ouve e faz algum milagre acontecer. Mas debaixo da terra, é mais fácil apelar para outro deus, talvez ele escute com mais prontidão. E, para ela, como um milagre, o caixão é aberto.

O homem da tatuagem estava certo quanto a sua suspeita. Ele cavou a terra quando percebeu que ela poderia estar viva. Naquele momento, ele era para ela, o anjo enviado por deus. A moça ainda está confusa e se arrasta sob a terra, está muito fragilizada e totalmente desorientada. Não sabe o que fazer, não sabe como agir, está revivendo a situação de ter nascido outra vez. Aquele caixão úmido era como um útero, como um bebê que após respirar pela primeira vez, precisa se alimentar. Ela sente muita fome. O homem retira da sua caixa térmica uma garrafa e ela sem nem mesmo sabe rdo que se trata, por impulso quase primitivo, ingere completamente todo o líquido, desejando mais e mais…

Enquanto se alimenta, o homem vai recompondo o túmulo para que ninguém perceba ou desconfie que o corpo de Maria não se encontra mais. Eles saem do cemitério, entram num velho carro e partem sem deixar vestígios. Era mais seguro e prudente levá-la para a sua casa. Eles precisam conversar seriamente sobre o que aconteceu nos últimos dias. (Continua na próxima postagem)